O ser humano necessita de amigos. Somos seres sociais. Necessitamos da convivência com outros seres humanos.

São os amigos que nos divertem, nos fazem refletir, nos chamam a atenção para aquilo que não enxergamos, conversam, debatem, passam tempo conosco e também são nossos confidentes.

Para o gay, penso que a importância do amigo seja quase igual a importância de um acompanhamento psicológico. Mas, não pode ser qualquer amigo. Deve ser “aquele” amigo, ou “O” amigo. O gênero pouco importa. Estou falando aqui da cumplicidade da amizade.

Eu tenho duas pessoas que considero no mais alto conceito de amizade. Tenho um pouco a mania de categorizar meus amigos. Isso pode ser loucura, egoísmo. Chamem do que quiserem, mas eu categorizo, pelo simples fato de não expor certos aspectos da minha vida, que podem ser tratados de maneira não tão cuidadosa, quanto eu cuido, pelo simples fato de que amigos são seres humanos, e erram, mesmo não querendo fazê-lo. 

Eu escolho que tipo de coisas posso confiar a um e a outro amigo. Tenho os amigos para quem confidencio coisas relacionadas ao trabalho. Outros para quem confidencio angústias pessoais não ligadas à sexualidade. Outros que sabem muito sobre meus podres amorosos, outros pra quem eu conto minhas desilusões amorosas. Enfim… para cada um, eu conto uma coisa. Pois sei que tipo de coisas essas pessoas são capazes de ouvir sem se escandalizar, e até mesmo de passarem adiante.

Não quero correr o risco de ter minhas confidências expostas para todos. Assim, confidencio pedacinhos para poucas pessoas.

Mas, tenho dois amigos que são mais especiais. Esses sabem exatamente todos os detalhes da minha vida. O primeiro deles, eu conheço há 18 anos. Nos conhecemos, quando eu tinha 20 anos e nunca mais nossa amizade esfriou, independente de distância, do casamento dele, dos filhos, e essas coisas naturais da vida, que nos afastam dos amigos.

O outro, eu conheci há 14 anos. Esse foi meu psicólogo no início. Eu o conheci para tratar da minha sexualidade mal resolvida. Assim, ele sempre soube que eu era gay, e eu fui contando as outras coisas, quando nos tornamos amigos. Quando decidimos que seriamos amigos e não mais terapeuta e paciente, nossa amizade nos permitiu a troca. Antes, era uma via de mão única, obviamente, pela condição de terapia. Agora, ele também divida comigo as suas angústias. Penso que só ganhamos com isso.

Curiosamente, o meu amigo mais antigo (o que conheço há 18 anos), só ficou sabendo das minhas preferências sexuais muito recentemente, há cerca de 7 anos. Por mais amigo que fossemos, eu sempre achei que ele não toleraria saber que sou gay. Mesmo o conhecendo e sabendo que nossa amizade era profunda, por todas as experiências difíceis e positivas que passamos juntos, eu tinha esse medo. Até considero normal, pois eu ainda não tinha muito resolvida a minha sexualidade para mim mesmo, quanto mais para falar disso com outras pessoas, especialmente amigos íntimos, devido ao grau de intimidade que temos, que lhe permitiria perguntar absolutamente tudo sobre o assunto. Perguntas para as quais eu não teria resposta. Não estava preparado para discutir esse assunto com ele, ainda mais correndo o risco de ter que argumentar a favor, defendendo o homossexualismo com ele, que é tão questionador e cheio de argumentos. Profetizamos a mesma fé, então já viu. A velha ideia de Marco Feliciano! Não preciso dizer mais nada! risos!

Mas, um dia, não sei se por ato falho, ou por descuido, inesperadamente, eu escrevi um email para o meu amigo e ex-psicólogo, contando muitas das minhas angústias. Me lembro que eu estava namorando uma menina e estava em conflito por estar mentindo pra ela sobre minha sexualidade, mas ao mesmo tempo, eu gostava dela, mas a parte sexual dava nó na minha cabeça. Eu fazia várias associações no email, sobre o meu comportamento e como me sentia, e as vezes usava comparações e metáforas grosseiras. Eu, quando estou com raiva, uso todos os palavrões existentes e até invento alguns para dar conta de expressar minha raiva e revolta. Esse email foi assim, cheio de palavrões, pois eu estava com muita raiva de mim e de ser gay.

Enfim. O email era para o psicólogo e acabou indo para o meu amigo mais antigo, mas eu não percebi.

Eu gelei, quando recebi a resposta dele. Reli o email, desesperado, pedindo a Deus que eu não tivesse feito aquilo. Mas, constatei que, infelizmente, eu tinha feito. 

Bem, respondi a ele por email. E ele me ligou, quase que no mesmo minuto. Mais uns segundos de angústia até dizer o alô inicial e identificar qual era o estado de humor dele. Mas, ele foi super carinhoso comigo. Me acolheu e me fez chorar de emoção ao telefone. 

Demoramos a nos ver pessoalmente depois desse dia. E, quando nos encontramos, eu estava com um frio na barriga, um medo incontrolável. Tremia por dentro e batia o queixo de tão nervoso.

Quando ele me viu, ele perguntou o porquê de eu estar daquele jeito, se já tínhamos conversado por telefone e eu já sabia qual tinha sido a reação dele. E eu o respondi dizendo que por telefone era uma emoção, mas ao vivo, eu podia ver o rosto e o semblante dele.

E ele me disse que só tinha uma mágoa daquilo tudo e que estava realmente chateado comigo. Fiquei mais gelado ainda, e com o estômago doendo com aquela frase. E perguntei a ele o porquê. E o pedi que não me recriminasse, porque ele era a única pessoa que eu não gostaria que tivesse aquela reação. Até meus pais, eu estou preparado e até espero esse tipo de reação contrária e de revolta, mas dele não.

E ele me disse: Estou magoado, porque você me privou de poder estar com você e de te oferecer meu ombro e meu apoio durante todos esses anos. Eu te contei tudo sobre minha vida e angústias. Você me apoiou em tudo e eu não pude fazer o mesmo por você, não porque eu não quisesse ou não me interessasse, mas porque você não me deixou.

Não preciso dizer que nesse momento eu soluçava de tanto chorar e nos abraçamos, como nunca antes!

Hoje, nós nos falamos e nos apoiamos em nossas fraquezas. Ele me conta as dificuldades que tem e o espinhos em sua carne, e eu conto os meus. E oramos, e falamos do amor de Deus por nós, da Graça confortadora e isso me alivia incrivelmente.

Sou grato a Deus, porque ele me deu dois amigos importantíssimos nessa caminhada solitária do homossexualismo.

Espero que vocês também tenham amigos tão sinceros e importantes, quantos os meus.

Um abraço.

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