Bem, atendendo a um pedido, vou escrever um pouco sobre meu processo de socialização.

Outro dia, conversando com uma colega de trabalho sobre homossexualidade eu ouvi um pensamento interessante. Ela dizia que, ou o gay aprende a enfrentar qualquer situação, ou ele se coloca dentro de uma ostra e vive cheio de problemas, recalques e traumas psicológicos.

Ela não sabe que sou gay, mas o assunto surgiu, porque vimos um adolescente andrógino, muito diferente e confuso em sua maneira de se apresentar para o mundo. Cabelos longos e pintados, jeito afeminado, mas com início de barba (penúgens), e voz grave.

De certa forma, eu concordo com ela. Eu aprendi a escolher. Ou vivia no meu mundo, triste, introspectivo, chorando, me culpando e me consumindo por uma situação da qual  não tenho culpa, ou escolhia viver de maneira leve e ser feliz.

Escolhi ser feliz.

Claro que não foi assim do dia para a noite. Aliás gastei várias noites observando o céu, o mar, as estrelas e conversando com Deus sobre o que sentia, e como seria isso, o que a igreja pregava sobre o assunto, e como eu ia enfrentar tudo isso sozinho. Puts! Foram noites difíceis!

Mas, me ensinaram muito: respeito ao próximo e suas opiniões, a entender que cada um reage ao mundo, baseado em sua experiência com ele, a entender que cada pessoa tem seus medos internos, forças e fraquezas que esconde. Enfim… aprendi a ver as pessoas, observá-las e a lidar com elas.

Bem, na adolescência, eu me fechei. À medida em que eu percebia que eram mesmo os garotos que me chamavam a atenção, eu ficava com mais medo. 

O momento da Educação física era um martírio. Nunca fui bom em esportes. Jogar futebol então nunca fez sentido para mim: 22 caras correndo atrás de uma bola? Ainda mais quando o seu pé não obedece aos comandos e você é ridicularizado a cada vez que toma um drible.

Eu era pequeno em estatura, nerd, porque sempre gostei de estudar e me interessava pelos assuntos das meninas. Nunca gostei de brincar de bonecas, mas sempre achei as brincadeiras dos meninos sem sentido.

Não foi difícil receber o apelido de viadinho. Era ridicularizado, puxavam minhas calças, me subiam pela cueca, faziam barbaridades comigo, o que hoje chamam de bulling. Ir para a escola era complicado. Eu me isolava na hora do recreio. As vezes não saia da sala, ou ficava sentado, isolado. Com o tempo, isso mudou. Conheci outros garotos que se identificavam comigo e aí, sim, interagia.

Até o dia em que anunciaram aulas de teatro no colégio. E que elas poderiam substituir a Educação física! Nossa… Fui um dos primeiros a me inscrever. E olha? Não tinham só os “viadinhos” na turma! Até tinham, mas não eram só eles.

No teatro aprendi a respeitar meu corpo, o outro, e entrei em contato com minhas emoções. Comecei a refletir sobre sentimentos, emoções, vivências. E me entreguei às aulas, que me ajudaram a me tornar cada vez mais extrovertido. 

Após a primeira peça, passei de viadinho, ao carinha que fazia teatro. E aprendi a lidar com minha timidez. Comecei a me sentir interessante e minha autoestima melhorou muito. Mas, o medo de me socializar persistia. Não saía de casa à noite e usava a desculpa de que meu pai era muito rígido. Ele era, mas eu também nunca transgredia regras, como todo adolescente faz. Como tinha medo de que me descobrissem, eu preferia não sair, porque ele dizia que eu tinha que chegar no horário em que todos estavam indo pras festas. Enfim, me conformava. Até queria sair, mas, sair para quê, se me culpava cada vez que via um cara bonito e ficava olhando sem ser correspondido. Sair significava sofrer, então era melhor ficar em casa.

Lá pelos 18 anos, eu consegui criar um grupo de amigos, em que haviam homens e mulheres e que tinham mais ou menos os mesmos gostos. Um cara que não sabia jogar futebol e era hétero, outro que era nerd e tocava violão maravilhosamente, e assim, fui percebendo que podia ser eu mesmo, ainda que escondendo que era gay. Comecei a me divertir saindo à noite. E meu pai já não podia me segurar. Comecei a trabalhar e ter meu dinheiro, então não dependia dele. 

Nessa época, eu até namorei umas meninas. Me atraía por elas, mas logo me desinteressava e sempre as culpava por serem ciumentas. Claro, um cara sensível, que ouve, compreende, entende, e ainda está ali dando suporte a todas as questões femininas… qual mulher não se apaixona? Até hoje, eu sou considerado o par perfeito… rs! A mulherada no trabalho cai matando… rs! Sofro altos assédios! E morro de rir…

Saía para as baladas e me escondia atrás de uma timidez, para não ficar com ninguém. Naquela época, também, a gente não ficava assim, como hoje. O povo namorava… Ficar estava no início, começando a fazer moda entre a juventude. Ok, sou velho mesmo, rs! Tenho 38 anos.

Daí, fui pra faculdade, primeiro emprego na área, e comecei a fazer terapia. Na terapia, consegui entender alguns processos internos e aprendi a lidar comigo mesmo. 

Nesse meio tempo, desenvolvi uma amizade muito forte com aquele, a quem hoje, eu chamo de irmão mais velho, mas, para quem nunca tive coragem de contar que era gay. Recentemente, por descuido, ele acabou sabendo. Eu enviei um email para o meu terapêuta, que já não era mais terapêuta, mas meu amigo, e, sei lá porque, entrou o endereço dele. Há quem diga que foi ato falho… Eu prefiro acreditar que fiz merda, ou que o computador deu algum tilt.

Gelei quando ele me respondeu. Mas, não tinha jeito, porque no e-mail eu desabafava sobre um amor platônico! Enfim, conversamos e ele brigou comigo. Mas, não pelo fato de eu ser gay, mas porque eu o tinha privado de saber disso e de me dar o ombro nos momentos difíceis em que eu deveria ter precisado dele. 

Esse amigo, e alguns outros me deram a chance de aprender a ter a amizade de um hétero. Hoje, eu curto futebol, discuto, torço, xingo e até sei a tabela dos jogos e pontos, rs! Acho que esse é mais um tabu que está caindo por terra.

No trabalho, eu sempre convivi bem com todos, e sempre saio para todos os cantos, mas nunca fico com ninguém. Os caras me chamam pra balada, para a azaração. Eu sempre tenho uma desculpa, mas eles continuam me chamando. Sou na minha: não bebo, não fumo… Mas, acho que à essa altura do campeonato as pessoas já são mais tolerantes também. Além do que já não tenho mais idade para as pessoas ficarem tomando conta da minha vida. Ok, sempre tomam, mas não to me preocupando muito.

Hoje, não me importo tanto com o que pensam, se desconfiam, ou se sabem. Chega um momento, em que a gente cansa de esconder. E, no final das contas, ninguém tem mesmo nada a ver com quem a gente transa.

Como disse outro dia para um parente que insinuou que eu era gay: “Fica tranquilo que to dando o MEU CU, e não teu. O teu tá presernvado!” E é um pouco isso. No final das contas, só diz respeito a nós. E se não impomos os limites, abrimos brecha para que as pessoas perguntem demais e tomam conta da nossas vidas.

Mas, ainda não to no ponto de assumir publicamente. Acho que esse dia vai chegar, mas não to com pressa.

Vou vivendo, rindo, e aproveitando as oportunidades boas da vida. E, quando me perguntam porque não tenho namorada, eu digo que vivo bem sozinho. E que já tive várias experiências negativas. Já me juntei, vivi uma experiência ruim morando junto. E percebi que sou melhor sozinho. 

No fundo, acho que sou mesmo, porque toda vez que conheço alguém, sinto o mesmo que sentia quando estava namorando com as meninas. Me sinto preso, controlado. Acho que sou egoísta e egocêntrico, ou, talvez, medroso. Ainda não cheguei a uma conclusão. Ao mesmo tempo que eu quero um amor, não sei se sei amar.

Mas, aprendi a viver sozinho, ir ao cinema, shows, jantar, e fazer tudo sozinho. E gostar disso. Meus amigos sabem o que deixo saber. 

Alguns são héteros e sabem. Uma minoria é gay e sabe também. E aí, desabafo, converso, troco experiências e vou vivendo. 

Como disse, a escolha é minha. E eu escolho ser feliz, aproveitando o melhor de todas as situações.

Esse post ficou enorme… Desculpem.

Abc,

 

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